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ago 21

Igualdade entre homens e mulheres

Homilia proferida em 19 de agosto de 2012, domingo
Evangelho: Lucas 1,39-56
Então Maria disse: – A minha alma anuncia a grandeza do Senhor. O meu espírito está alegre por causa de Deus, o meu Salvador. Pois ele se lembrou de mim, sua humilde serva! De agora em diante todos vão me chamar de mulher abençoada, porque o Deus Poderoso fez grandes coisas por mim. O seu nome é santo, e ele mostra a sua bondade a todos os que o temem em todas as gerações. Lucas 1,39-56

Por não dispormos de outra linguagem, quando nos referimos a Deus, ou seja, ao valor absoluto, utilizamos a linguagem humana. A linguagem humana é determinada pela cultura a que pertence o ser humano.

No norte do Iraque, povos beduínos no meio do deserto, sem quase nenhuma árvore, a não ser alguns oásis, um pouco de água e grama para os rebanhos poderem se alimentar, utilizam uma linguagem para se referir a Deus completamente diferente dos povos que habitam a Amazônia, em contexto cultural completamente diverso. Não há como utilizar a mesma linguagem do norte do Iraque na Amazônia.

Ao ler os textos do Evangelho é indispensável levar em conta o seu contexto cultural. No meio do deserto, com oásis distantes um do outro, a mais ou menos um dia de viagem, o problema básico é conseguir água para matar a sede. Para conseguir água precisavam lutar. É natural que, nesse contexto de escassez, os homens tornem-se guerreiros, que se matem mutuamente para conseguir a água necessária à sobrevivência da prole. Nesta situação é normal que se instituam povos de alma guerreira e se consolide o poder masculino absolutizado como divino. Esta é a origem do monoteísmo que entende Deus como homem. A religião não poderia ser diferente naquele contexto cultural totalmente distante das religiões da Índia, das latino-americanas ou mesmo das de outras regiões da África, em que a geografia exige outro comportamento.

Quando doze desses povos beduínos se uniram e se tornaram sedentários, formando a terra prometida de Israel, o povo de Israel, essa imagem divina começou a ser questionada. Já não era necessário apenas o homem guerreiro, único salvador e possuidor da força absoluta. A mulher passou a ser necessária para assegurar a povoação de território tão extenso para as pequenas populações beduínas. Naquele contexto, logo após o exílio, os homens se sentiram desvalorizados por terem perdido a guerra e por serem vendidos como escravos, e quem segurou a identidade nacional foram as mulheres.

Naquela ocasião Ana, a mãe de Samuel, recitou o canto que Maria recitou depois numa situação diferente. A partir daquele instante as coisas começam a mudar. O Deus passa a não ser mais o único absoluto masculino e, lentamente, a força da mulher começa a ser reconhecida, conforme deixa muito claro o canto. Em 1950 a mulher é colocada ao lado do Cristo no céu, com a mesma dimensão salvadora do Filho que a salvou e a levou ao céu. A mesma linguagem mítica de Ana é utilizada, mas dessa vez representou a mutação da visão da figura do homem e da mulher. O dogma de Maria confirmou a transformação que estava acontecendo na sociedade ocidental da época.

Com o processo de industrialização, em 1850, iniciou-se a luta feminina pela igualdade de direitos. Cem anos depois a Igreja, com o Papa Pio XII, reconheceu que a mulher não é a culpada pelo pecado original. Conforme o Gênesis no Antigo Testamento, Adão ficou numa boa enquanto Eva foi considerada a culpada, e não tendo para quem apelar, apelou para a serpente. A desvalorização da mulher e a origem da culpa feminina estão muito claras no Gênesis. Este mito transformou-se em 1950, quando Maria foi colocada ao lado de Cristo no céu e a Igreja reconheceu a igualdade entre homens e mulheres. O dogma da assunção de Maria é um enorme avanço com relação à percepção da igualdade entre homem e mulher.

Então, mulheres em luta pela igualdade ainda não conquistada, percebam neste dogma celebrado no dia de hoje a sua força de inspiração. Percebam também que mulher realmente está sendo celebrada hoje: se a Nossa Senhora habitualmente venerada, uma mulher muito esquisita, com vestes esquisitas, totalmente diferente de uma mulher moderna, encarada sempre de uma forma purista, assexuada, como se não fosse de carne e osso? Ou a mulher que proferiu o canto: “a minha alma engrandece o Senhor porque o Senhor fez em mim maravilhas e todas as gerações vão me chamar de bem aventurada” ? Qual das duas imagens lhes inspira?

Será que se sentem bem aventuradas em suas vidas? Será que olham para si e reconhecem como é fantástico ser mulher de carne e osso? Como é fantástico menstruar, poder dizer não, conseguir enfrentar o trabalho e viver em pé de igualdade com o companheiro homem! É fantástico poder dizer que hoje foi um dia ruim, mas que amanhã será um dia bom. É fantástico poder admitir que possuem o mesmo poder e a mesma responsabilidade e, portanto, os mesmos direitos e deveres que qualquer ser humano.

Conseguem viver esta realidade ou continuam acreditando que foram criadas para fazerem sozinhas duas jornadas de trabalho, enquanto o companheiro faz apenas uma? Onde está a igualdade? Por que eles não cozinham nem arrumam a cama, assim como vocês? Somos todos iguais. As mulheres neste momento estão redescobrindo um valor que representa um ganho. Os homens neste momento estão sendo forçados a mudar e sentem isso como perda. O momento psicológico masculino é diferente. Peço que comecem a compreender mais os homens. Porque, por enquanto, só exigem de nós sem nos compreenderem em nossas perdas, nem em nossas dores. Mas foram as nossas mães que nos disseram que não poderíamos mostrar a nossa dor, que não poderíamos chorar nem mostrar a nossa fraqueza! Então deem-nos um tempo para que possamos nos reeducar! E como são mais habilitadas emocionalmente, ajudem-nos a caminhar! Ninguém caminha a pauladas. Não adianta dar dez pauladas no traseiro do asno que ele não anda! Coloquem uma cenoura no nariz dele para que se mova! Convidem-nos com o amor de mulher a nos encaminharmos para esta nova realidade da igualdade, que para a mulher é um ganho, enquanto que para o homem é uma perda.

Que a festa de hoje, que ilumina e absolutiza a igualdade entre homens e mulheres, seja não apenas celebrada, mas encarada como desafio para que algum dia não muito longe possa se tornar realidade.

Ana proferiu o cântico logo depois do exílio, as mulheres iniciaram o movimento feminino a partir do momento em que começaram a ser exploradas pelas indústrias em 1850. Pio XII declarou o dogma da anunciação cinco anos depois da Segunda Guerra Mundial, quando as mulheres estavam reconstruindo o país.

Qual é a resposta do Brasil, onde 51% dos lares, principalmente nas periferias das grandes cidades, possuem como provedoras mulheres, e não mais homens?